A complicação do relacionamento gay

Um outro dia um amigo me disse: “relacionamento gay é muito complicado?” Aí está dúvida foi mas forte do que eu… fiquei pensando sobre o assunto e cheguei a seguinte conclusão: Para responder essa questão é preciso lembrar que relacionamentos, tanto faz se entre héteros ou entre gays, são sempre complicados. Porém, os gays são também obrigados a lidar com muitas outras dificuldades além das enfrentadas por todo mundo. A mais séria, a meu ver, é a homofobia internalizada. Desde muito cedo aprendemos, entre outras coisas negativas, que.. relacionamentos homossexuais não têm futuro. Que são baseados apenas na satisfação imediata pelo sexo, sem fins de procriação e sem função na sociedade, esses relacionamentos são vistos como narcisistas e imaturos. Os gays crescem sem ter a oportunidade de explorar sua afetividade e sexualidade de forma natural e espontânea, como fazem os héteros, e passam a acreditar que sua diferença está irremediavelmente associada à solidão e ao abandono. Como essas crenças estão, na maior parte das vezes, no nível inconsciente, eles tendem a buscar fora deles as causas para seu fracasso em obter e manter relacionamentos significativos. “Os gays (os outros, é claro!) só pensam em sexo” ou “ninguém quer nada sério” não são meras constatações da realidade que os cerca, mas indicadores poderosos da sua homofobia internalizada. Um outro sintoma importante da homofobia internalizada é o valor positivo que se costuma dar aos “fora do meio”. Esses costumam ser vistos como “superiores”, como uma casta que não se mistura com a massa “promíscua” e “fútil” da qual se constitui o mundo gay. Ora, se vive “fora do meio” e rejeita aqueles que são como ele, como fazer para encontrar um parceiro e para estabelecer um relacionamento que se sustente sem os apoios familiar ou social? (situação parecida ocorre com mulheres que só têm amigos gays e se queixam de não conseguir arranjar um namorado). Outra dificuldade inerente aos relacionamentos gays tem a ver com os papéis de gênero (masculino e feminino), ou seja, os comportamentos e atitudes que a sociedade estabelece para cada um dos gêneros, e que nos são impostos primariamente pela família e pela escola. Os meninos são incentivados a serem fortes e competitivos, a evitarem demonstrações de afeto e a explorarem sua sexualidade de forma mais livre do que as meninas. Com isso, aprendemos pouco sobre como expressar sentimentos e dividir nossa intimidade. Por outro lado, desenvolvemos uma identidade fortemente apoiada na sexualidade e na disputa pelo poder. Como um relacionamento gay envolve necessariamente dois homens, essas características de gênero tendem a ser uma fonte adicional de conflitos.Impossível falar sobre relacionamentos gays sem tratar da questão da “invisibilidade”. A maioria dos gays cresce em famílias heterossexuais e passa boa parte da infância e da adolescência sem sequer conhecer um casal gay (abertamente gay e/ou abertamente casal). Mesmo depois de terem se assumido e passado a conviver com outros gays, não é muito freqüente encontrarem casais gays estáveis e visíveis. Muitos escolhem se “misturar” com os héteros e viver uma vida longe da comunidade gay; ou porque sentem-se, de alguma forma, ameaçados na sua segurança, ou porque acreditam que o modelo de casal não é compatível com o estilo de vida gay. Além disso, a ausência de modelos públicos (como na mídia, por exemplo), a falta de literatura específica sobre o tema e de especialistas em aconselhamento para casais gays, torna essa empreitada uma aventura ainda mais solitária.Quando um casal hétero se forma, “os céus dizem amém”. É possível, e muito desejável, que o casal compartilhe sua felicidade com a família e os amigos. Quando se depara com as dificuldades naturais dos relacionamentos, encontra apoio e ajuda para resolver os problemas. Quando se separa, além dos ombros de familiares e de amigos para chorar, o casal terá provavelmente a compreensão de todos à sua volta, assim como todos os recursos que